4# BRASIL 29.1.14

     4#1 "LEVEI R$ 200 MIL PARA O MINISTRO LUPI"
     4#2 OS PLANOS DE MERCADANTE
     4#3 AS INDECNCIAS DE MARIN
     4#4 UM ACHACADOR NA CADEIA
     4#5 ELE NUNCA ESTEVE TO ISOLADO
     4#6 QUEM EST ASSANDO ESSA PIZZA?
     4#7 EMPRSTIMOS SUSPEITOS
     4#8 ESQUEMA PARANAENSE

4#1 "LEVEI R$ 200 MIL PARA O MINISTRO LUPI"
A empresria Ana Cristina Aquino diz que pagou propina para o ex-ministro Carlos Lupi e que esquema para criao de sindicatos no Ministrio do Trabalho permanece na gesto de Manoel Dias
por Izabelle Torres

A empresria mineira Ana Cristina Aquino, 40 anos,  uma conhecedora dos meandros da corrupo no Ministrio do Trabalho e desde dezembro do ano passado vem contando ao Ministrio Pblico Federal tudo o que sabe. As revelaes feitas por ela tanto aos procuradores como  ISTO mostram os detalhes da atuao de uma mfia que age na criao de sindicatos  setor que movimenta mais de R$ 2 bilhes por ano  e que, segundo a empresria, envolve diretamente o ex-ministro e presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, e o atual ministro, Manoel Dias. Levei R$ 200 mil para o ministro Lupi numa mochilinha da Louis Vuitton, diz a empresria. De acordo com ela, o ministro Manoel Dias faz parte do mesmo esquema.

E O ESQUEMA CONTINUA - Segundo a empresria Ana Cristina Aquino, Manoel Dias, atual ministro do Trabalho, deu prosseguimento  criao de sindicato pleiteado por ela

Ana Cristina  dona de duas transportadoras, a AG Log e a AGX Log Transportes, e durante trs anos fez parte da mfia que agora denuncia. A Polcia Federal em Minas Gerais j tem indcios de que suas empresas serviam como passagem para o dinheiro usado no pagamento das propinas para a criao de sindicatos. Em apenas 24 meses, entre 2010 e 2012, a empresria trocou as dificuldades de uma vida simples pelo luxo de ter avio particular, helicptero, uma manso em Betim (MG) e at cinco carros importados na garagem. Para ela, o esquema comeou a ruir depois que ISTO revelou, em outubro do ano passado, que seu enriquecimento era alvo de uma investigao da PF. Os antigos parceiros me abandonaram. Estou sendo ameaada, mas no vou pagar essa conta sozinha, diz Ana Cristina.

O advogado Joo Graa, assessor especial do ministro Manoel Dias e homem de confiana do ex-ministro Carlos Lupi, foi por dois anos scio da AG Log e deixou a empresa depois de a investigao da PF ser instalada. Segundo Ana Cristina, era ele o elo entre as suas empresas e a mfia dos sindicatos no Ministrio do Trabalho. Procurado por ISTO, Graa disse que as acusaes fazem parte de uma briga de mercado e que se manifestar apenas quando conhecer todos os detalhes da denncia. A empresria afirma que Graa estava com ela quando foram entregues os R$ 200 mil ao ento ministro Lupi. O Ministrio Pblico tenta localizar as imagens da portaria do Ministrio para confirmar a informao. Usamos o elevador do ministro. O doutor Joo Graa manda naquele Ministrio, disse Ana Cristina. Em seguida, ela lembra que, depois de receber o dinheiro, Lupi chegou a perguntar, em tom de brincadeira, se estava sendo gravado. Na quinta-feira 23, Lupi disse  ISTO que s vai se manifestar quando tiver acesso aos documentos que Ana Cristina diz ter entregue ao Ministrio Pblico.

O enredo de corrupo narrado pela empresria comea no segundo semestre de 2011, quando ela e seu grupo decidiram montar o Sindicato dos Cegonheiros de Pernambuco (Sincepe) para tentar abocanhar contratos milionrios com montadoras que iriam se instalar no Nordeste. Em outubro daquele ano, Ana Cristina protocolou o documento no Ministrio do Trabalho pedindo a expedio da carta sindical. Nessa poca, o advogado Graa j havia se transformado em um parceiro de negcios da AG Log, por indicao do empresrio Srgio Gabardo, que, segundo Ana Cristina, era o verdadeiro dono da transportadora e o responsvel por todo o aporte milionrio de recursos para bancar as propinas. Segundo o relato da empresria, assim que o registro foi pedido, o encontro no gabinete do ento ministro do Trabalho foi marcado pelo prprio Graa. De acordo com a empresria, Lupi afirmou que o dinheiro pago naquele dia era apenas a entrada e que a aprovao do registro sindical custaria R$ 3 milhes. Mais ainda: no dia seguinte, como disse Ana Cristina, Lupi mandou o amigo Joo Graa avis-la que, se o sindicato desse certo e conseguisse arrecadao e bons contratos, ele tambm deveria participar do negcio sendo dono de uma parte da frota do grupo AG.

Depois de receber R$ 200 mil e prometer aos representantes da AG Log que o Sincepe seria criado em um prazo recorde de 40 dias, Lupi foi varrido do cargo durante a faxina que a presidenta Dilma Rousseff  comeava a fazer no seu governo. Ele foi demitido por envolvimento em denncias de corrupo, que incluam exatamente os processos irregulares de criao de sindicatos. Ana Cristina diz que o deputado Brizola Neto (PDT-RJ), que assumiu no lugar de Lupi, tentou colocar um freio na indstria dos sindicatos. Durante sua gesto, os trmites para a oficializao do sindicato pleiteado por Ana travaram. Mas Brizola Neto acabou perdendo o apoio de seu prprio partido e foi afastado do Ministrio 11 meses depois de assumir. Em seu lugar tomou posse o atual ministro Manoel Dias, indicado por Lupi e leal s prticas do PDT. A tramitao da expedio da carta sindical do Sincepe no Ministrio do Trabalho, obtida por ISTO, mostra que na gesto de Manoel Dias o processo voltou a correr. Esse a (o ministro Manoel Dias) ia liberar. S no liberou por causa da reportagem de ISTOɔ, disse a empresria. Segundo ela, depois de publicada a reportagem na revista, o advogado Joo Graa marcou um encontro no Hotel Mercury, em So Paulo, e afirmou: Fique calma, esse ministro  nosso tambm. Ana Cristina afirma que a conversa teria prosseguido em uma espcie de monlogo de Joo Graa, em uma tentativa de acalm-la e evitar que ela denunciasse o esquema, como decidiu fazer. A estratgia do grupo era convenc-la a assumir a culpa e, em troca, viabilizar para ela e para a famlia o comando de um sindicato com amplos poderes e muito dinheiro. O Sindicato de Cegonheiros de Pernambuco arrecadaria um percentual do lucro bilionrio do setor, alm de acumular influncia para interferir nos contratos com montadoras que se instalassem na regio. No caso do Sincepe, a ideia era garantir que a Fiat fechasse um negcio bilionrio com a AG Log.

Agora, as denncias de Ana Cristina devero virar um inqurito formal no Ministrio Pblico Federal. Aos procuradores, alm de depoimento, a empresria diz ter entregue uma srie de documentos. No meio da papelada esto extratos bancrios, contratos sociais e pginas de uma agenda manuscrita, em que estariam relacionados os destinatrios das propinas e os valores pagos.

Esse ministro (Manoel Dias)  nosso tambm

Nas duas ltimas semanas, a empresria Ana Cristina Aquino conversou com ISTO por cerca de duas horas. Dona de um forte sotaque mineiro, ela autorizou que os encontros mantidos num restaurante em Braslia fossem gravados e divulgados como entrevista. Disse estar endividada e abandonada pelo grupo ao qual se associou em 2010 e que desde ento opera nos meandros do Ministrio do Trabalho. Por causa disso  que ela diz ter recorrido ao Ministrio Pblico e avalia que tornar pblicas suas acusaes  a melhor maneira de se proteger. Leia a seguir trechos dessas conversas:

ISTO  A sra. est tentando criar um sindicato? 
 Ana Cristina Aquino  Desde 2011. Essa carta sindical iria sair na poca do Carlos Lupi no Ministrio do Trabalho. O advogado Joo Graa, que  do PDT, foi contratado pela nossa empresa justamente porque tinha ligaes com o Lupi. Ele era a nossa garantia de que 
 o sindicato seria aprovado rapidamente.

ISTO  O ento ministro Carlos Lupi recebeu dinheiro para viabilizar esse sindicato?
 Ana  Recebeu, recebeu sim. Levei R$ 200 mil para ele. Carregando uma bolsa nas costas, fui direto para o gabinete dele. Segurando uma mochilinha da Louis Vuitton. No tem aquelas compridinhas? Foi daquelas. Ele mandou desligar o telefone assim que eu entrei. Disse: No est gravando no, n? Eles so espertos!

ISTO  Como a sra. passou pela segurana na portaria do Ministrio carregando tanto dinheiro  em uma mochila?
 Ana  Joo Graa passava por tudo que  lado!!! O doutor Joo mandava naquele Ministrio.

ISTO  Ento a sra. entrou direto, sem passar pela segurana?
 Ana  Direto. Usamos o elevador do ministro.

ISTO  Qual a origem do dinheiro que foi entregue ao ministro?
 Ana  O Srgio Gabardo (empresrio acusado por Ana Cristina de ser o verdadeiro dono da AG Log) me entregou o dinheiro e falou: Esse aqui  para o ministro, para ajudar nas obras sociais dele. A gente riu.

ISTO  Isso foi quando? 
 Ana  Isso foi dois dias depois de sair o pedido de registro, l para 2011. 
 O prprio Lupi me disse, na minha cara, que colocava o sindicato para sair em 40 dias. Brincou que seria o cdigo sindical mais rpido do Brasil.

ISTO  O registro iria custar os R$ 200 mil entregues ao Lupi?
 Ana  No iam ser s R$ 200 mil, no. Essa carta sindical custaria R$ 3 milhes. Ele encheu o olho porque se tratava de um sindicato cegonheiro e todo mundo j sabe que cegonha d muito dinheiro mesmo. Eles fantasiam uma coisa na cabea deles.  uma coisa em que todos acham que rola muita grana. Na poca, o Lupi ainda falou para o Joo Graa, que me contou, que, se desse certo de a gente pegar qualquer servio em Pernambuco, ele queria o direito a ter frotas na empresa. Ocultamente. Claro que no seria no nome dele. Um ministro no poderia ter frotas em uma cegonha de forma aberta.

ISTO  Por que o sindicato no saiu na gesto do ministro Brizola Neto?
 Ana  Acho que foi uma passagem rpida dele por l. No saiu porque ele no passou muito tempo. E o Joo Graa no tinha ligao direta com o Brizola Neto como tem com o Lupi.

ISTO  E como est a questo, atualmente, com o ministro Manoel Dias?
 Ana  Esse a (o ministro Manoel Dias) era o que ia liberar esse cdigo, agora! Era ele! S no liberou por causa da reportagem de ISTO. Quando saiu a reportagem, o Joo Graa foi encontrar comigo no hotel Mercury, em So Paulo. Chegou l e disse para eu ficar calada porque o registro sindical sairia de qualquer jeito. Sentamos na primeira mesa do restaurante, ele olhou para mim e disse: Fique calma, esse ministro  nosso tambm. Ele disse que o Manoel Dias era s de fachada e quem d as canetadas no Ministrio ainda  o Lupi. Foram exatamente essas as palavras que ele usou l no hotel.

ISTO  Por que a sra. resolveu dar dinheiro para criar o sindicato? 
 Ana  Se a gente no d dinheiro a esse pessoal, no sai sindicato. Desconheo algum registro que tenha sado sem gastar com propina.


4#2 OS PLANOS DE MERCADANTE
Conhea os projetos e desafios do novo homem forte do Planalto, que vo muito alm do que simplesmente auxiliar a presidenta Dilma Rousseff, enquanto ela percorre o Pas para pedir votos e discutir alianas para a reeleio
Paulo Moreira Leite

Com as credenciais de quem teve um papel reconhecido durante os protestos de junho de 2013, quando ajudou a tirar o Planalto de uma crise que assumia dimenses apocalpticas, o ministro da Educao, Aloizio Mercadante, assume o posto de ministro-chefe da Casa Civil para cumprir funes essenciais do governo Dilma Rousseff. Programando um inevitvel afastamento dos afazeres diretos de governo para dedicar-se  campanha pela reeleio, Dilma convocou Mercadante para fazer uma espcie de revezamento.

O DIA D - Ascenso de Aloizio Mercadante para a Casa Civil foi definida em reunio na segunda-feira 20, em que estavam presentes a presidenta Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula

Enquanto a presidenta ir percorrer o Pas para discutir alianas e pedir votos, Mercadante ficar em Braslia para assumir o papel de gestor do governo, num cargo que tem armadilhas que ajudaram a derrubar um dos principais dirigentes do partido, Jos Dirceu, mas tambm oferece oportunidades que transformaram Dilma Rousseff na sucessora de Luiz Incio Lula da Silva sem que ela tivesse vencido sequer uma eleio de sndico. Chamado, at agora, para participar de reunies da Coordenao da Campanha, abandonar as funes eleitorais para preocupar-se com o governo em regime de dedicao exclusiva. Se a reforma ministerial inclui ministros que s devem permanecer em seus cargos at a eleio, permitindo novas nomeaes caso Dilma seja reeleita em outubro, Mercadante entrar na Casa Civil para permanecer durante um eventual segundo mandato.

Enfeitado com o adereo de Superministro antes mesmo que sua nomeao fosse anunciada oficialmente, o que deve ocorrer nos prximos dias, Mercadante rejeita o apelido. Mais: o considera uma grande asneira. Em 40 anos de vida pblica, aprendeu que um ministro que pretende ser maior do que os outros passa a disputar poder com quem tem o direito de assinar sua carta de demisso  a presidenta da Repblica.

 certo, porm, que Mercadante ter mais poderes do que, por exemplo, a senadora Gleisi Hoffmann, antecessora de menor estatura poltica, sem autonomia nem poder de deciso, sempre sob as asas da presidenta. Na vida cotidiana, a Casa Civil ocupa o centro do governo.  a porta de entrada do gabinete presidencial, por onde passam todas as sugestes relevantes que sero levadas  presidenta e de onde saem as decises mais importantes que iro afetar a vida dos 200 milhes de brasileiros. Nessa posio, Mercadante nada far que possa ser visto  nem sequer interpretado  como um arranho  autoridade de Dilma. Por essa razo, rejeitou todos os pedidos de entrevista antes de a nomeao ser oficializada. Mesmo instalado em dependncias da Casa Civil, no Planalto, consultando documentos e abrindo pastas para conhecer as novas funes, tambm evitou fotografias no novo ambiente, postura que trai a lio aprendida por Fernando Henrique Cardoso ao sentar-se na cadeira de prefeito de So Paulo que lhe seria tomada por Jnio Quadros nas urnas de 1985. 

Frequentemente criticado por sofrer de uma doena chamada vaidade excessiva, e at por uma postura considerada autossuficiente demais, no novo cargo Mercadante ser submetido a testes frequentes de conteno e disciplina. O mundo poltico  formado por homens e mulheres que acima de tudo gostam de Poder com inicial maiscula, mercadoria que se disputa palmo a palmo, 24 horas por dia, nos 365 dias do ano. Nesse universo,  fcil confundir contribuio com intromisso, e at mesmo ajuda com arrogncia. Boas intenes, frequentemente, so confundidas com intrigas e planos maquiavlicos. Na Casa Civil, caber a Mercadante encontrar a fronteira certa.

Embora  ele tenha conhecido Dilma no final da dcada de 1970, quando ambos estudavam ps-graduao no curso de economia da Universidade de Campinas, a razo principal para a nomeao de Mercadante encontra-se em junho de 2013, naquelas semanas da vida brasileira em que as grandes cidades viviam um ambiente que ora lembrava uma insurreio popular, ora uma epopeia de fico cientfica. Na ocasio, Mercadante foi um dos  poucos  ministros capazes de fazer a diferena num governo que oscilava entre a desorientao e a paralisia. Contribuindo para formular um conjunto de cinco pontos que ajudaram a aliviar a tenso social e baixar a temperatura poltica, seu prestgio interno cresceu na mesma proporo em que os ndices de aprovao da presidenta voltaram a subir.

Ele deu contribuies na reforma poltica, fez o arremate final no programa Mais Mdicos e tambm no esforo para levantar recursos para investimentos atrasados em metr e corredores de nibus. Tambm negociou a parcela de royalties do pr-sal que ir financiar a educao. Recebidas com ironia e pouco caso, as propostas tinham um eixo central  conversar com as ruas  e revelaram a disposio para correr riscos numa hora em era mais confortvel fazer crticas em voz alta e esconder-se embaixo da mesa at a tempestade passar. Mercadante j tinha recebido notas favorveis, na avaliao presidencial, pelo trabalho na Cincia e Tecnologia, ministrio que recebeu por influncia de Lula. Em sua passagem pelo Ministrio da Educao, recebeu muito mais elogios do que crticas por parte de Dilma, que desde ento devota s suas ideias e opinies uma ateno que poucos ministros recebem. Com leituras econmicas da mesma biblioteca que as da presidenta, e pensamento poltico com grandes semelhanas, tambm, h muito tempo Mercadante conquistou o direito de falar sobre assuntos que vo muito alm de suas pastas. Esse , na verdade, seu trunfo principal.

 sintomtico que, ao buscar liberar-se das tarefas presidenciais para dedicar-se mais  campanha, Dilma tenha escolhido Mercadante como gestor do governo. Nas projees sobre a campanha eleitoral, o governo reserva suas maiores cautelas para aquele movimento imprevisvel e sempre ameaador dos protestos de rua. Inspirados pela Copa do Mundo, por problemas de nibus, por rolezinhos de shopping ou qualquer outro fator que possa transformar uma fasca num incndio, esses movimentos representam uma pesadelo muito maior, hoje, do que os adversrios nominais do governo. Em junho de 2013, a aprovao de Dilma, ento superior a 65%, derreteu em poucas semanas de protestos. Hoje com 40% de intenes de voto, ningum sabe o que ir acontecer, caso venham a ocorrer mobilizaes com a mesma envergadura nos meses anteriores  eleio. Se isso acontecer, Mercadante estar em seu novo lugar no Planalto.


4#3 AS INDECNCIAS DE MARIN
O presidente da CBF promove uma srie de trapalhadas  frente da entidade e manipula as verbas do futebol brasileiro para garantir a eleio de seu sucessor

Enquanto os torcedores comeam a se adaptar aos novos estdios e os jogadores se organizam em nome do bom senso cada vez mais distante de nossos gramados, a Confederao Brasileira de Futebol (CBF) e seu presidente, Jos Maria Marin, colecionam bolas fora. A ltima trapalhada veio a pblico na semana passada. A CBF enviou uma minuta de contrato, por e-mail,  Associao Portuguesa de Desportos condicionando a liberao de um emprstimo de R$ 4 milhes, pedido pelo clube,  renncia  briga para disputar a srie A do Brasileiro.  real o temor da CBF de que uma guerra de liminares na Justia Comum possa inviabilizar o campeonato, mas isso no justifica que uma entidade com o tamanho da Confederao Brasileira de Futebol formule uma proposta to indecente. O que pode explicar tremenda desfaatez  o fato de que essa picaretagem, como definem os dirigentes da Lusa, est longe de ser uma ao isolada no currculo de Jos Maria Marin, que j foi flagrado at colocando no bolso uma medalha que seria entregue aos campees da Copa So Paulo do ano passado.

CABRESTO - O dirigente esportivo usa os cofres da CBF para sufocar tentativas de oposio ao seu projeto

 frente da CBF, Marin mantm as prticas de seu antecessor, Ricardo Teixeira, que renunciou para no ter o patrimnio investigado por organismos internacionais. Dirigentes do futebol de trs Estados disseram  ISTO que Marin maneja os cofres da CBF para sufocar tentativas de oposio ao seu projeto  frente da entidade. Segundo eles, os valores repassados s federaes, por exemplo, no levam em conta apenas o futebol, mas, principalmente, o grau de fidelidade ao atual comando da CBF e a disposio em votar no candidato de Marin para a sua sucesso: o presidente da Federao Paulista, Marco Polo Del Nero. Segundo os dirigentes ouvidos por ISTO, o uso da mquina garante a Del Nero o apoio de cerca de 70% das 27 federaes. Junto com os 20 clubes da srie A, elas formam o colgio eleitoral da CBF. Marin usa a pura poltica do cabresto, resume um presidente de clube.

As poucas federaes que resistem  influncia de Marin sofrem no bolso.  o caso da federao gacha, comandada por Francisco Novelletto Neto. H nove anos, os gachos no recebem um centavo da CBF. Mesmo adotando um discurso recente de evitar debates pblicos, Novelletto Neto confirma o boicote que se perpetua desde a gesto de Ricardo Teixeira. Depois de pedirmos quatro vezes (o repasse) para esta gesto, eles me procuraram h trs ou quatro meses para fazer um acordo e voltar a pagar, diz. Eu no aceitei. Ou paga o valor dos nove anos ou nada feito, comenta.

SUCESSOR -  esq., Marco Polo Del Nero, presidente da Federao Paulista e candidato de Marin ( dir.)

Fora da CBF, Marin tambm coleciona polmicas. Em junho, veio  tona a informao de que ele expandiu uma de suas propriedades se apropriando do terreno de uma praa na capital paulista, avaliado em cerca de R$ 2,5 milhes. Flagrado, esquivou-se e jogou a culpa sobre a locatria do imvel, uma concessionria de automveis. A empresa, no entanto, rebateu as acusaes. Fotos comprovaram que, antes de a concessionria se instalar no local, a propriedade de Marin j avanava sobre o patrimnio pblico. A rea, alis, havia sido alvo de outros problemas junto  prefeitura paulistana. Fato que no causa surpresa levando em conta que Marin foi acusado at de usar indevidamente a energia eltrica de um vizinho para abastecer a sua residncia onde mora em So Paulo.

Tantas bolas fora levaram  participao de mais de 50 mil pessoas em um abaixo-assinado que pede a sada de Marin do comando da CBF. Um dos pontos levantados no documento  a colaborao do presidente da confederao com a ditadura militar. Familiares de vtimas do regime condenam, entre outros, os elogios proferidos pelo ento deputado estadual de So Paulo Marin ao temido torturador Srgio Paranhos Fleury em 1976.  uma vergonha nacional um homem como este (Marin), com um passado poltico vinculado ao regime militar e a agentes da represso, ocupar um cargo como este, comenta Ivo Herzog, filho do jornalista assassinado pela ditadura Vladimir Herzog e um dos organizadores do abaixo-assinado. No Palcio do Planalto, a ligao de mandatrio da CBF com os militares  vista como uma das razes de a presidenta Dilma Rousseff evitar receb-lo at em reunies para tratar assuntos da Copa do Mundo. Apesar da pouca receptividade do governo federal, Marin, governador de So Paulo entre 1982 e 1983 aps a renncia de Paulo Maluf, conta com prestgio no meio poltico. Atualmente, ele  presidente de honra do PTB Esporte.

Ao oferecer a proposta indecente  Portuguesa, Marin indiretamente admite que foram trapalhadas da prpria CBF que ameaam a realizao do Brasileiro. Em um lance de amadorismo, o site da entidade, que deveria publicar a lista de atletas suspensos antes das partidas, s informou a punio quando o campeonato j havia encerrado. O Ricardo Teixeira (ex-presidente da entidade), pelo menos, tinha uma qualidade: sabia que no entendia e a no se metia, diz um dirigente. O Marin acha que sabe e faz lambana. E ele no pensa em dividir a bola com os adversrios.


4#4 UM ACHACADOR NA CADEIA
Justia de Minas enfrenta quadrilha de falsrios, determina a priso de empresrio que usava site para extorses e polcia encontra documentos que podem lig-lo a atentado contra um promotor
Mrio Simas Filho

A Justia de Minas Gerais deu um importante passo para pr fim a uma quadrilha especializada em falsificar documentos, extorquir polticos e empresrios e ameaar delegados, promotores, juizes e desembargadores. Na segunda-feira 20, por determinao da juza Maria Isabel Fleck, da 2 Vara Criminal de Belo Horizonte, o empresrio Marco Aurlio Carone foi para a cadeia. Ele  proprietrio do site Novo Jornal, que, segundo o Ministrio Pblico,  usado para achacar os alvos do grupo e denegrir a imagem daqueles que se opem ao esquema criminoso. Esse grupo de delinquentes vem agindo h algum tempo. Eles tm como lder o falsrio Nilton Monteiro e como relaes pblicas o indivduo que se passa por jornalista virtual de nome Marco Aurlio Flores Carone, responsvel pelo site Novo Jornal, que nada mais  seno um balco para os negcios do bando, diz o promotor Andr Garcia de Pinho, um dos responsveis pelas investigaes e pelo pedido da priso de Carone.

SENTENA - A juza Maria Isabel Fleck est convencida de que o empresrio Carone  uma ameaa  sociedade e usa o site Novo Jornal para extorquir

Nilton Monteiro  um velho conhecido da Polcia Federal e da Procuradoria da Repblica. Ele  acusado de falsificar a lista de Furnas  uma relao com o nome de diversos polticos mineiros que teriam recebido recursos irregulares para suas campanhas  e est preso na Penitenciria Nelson Hungria, em Contagem. Agora foi a vez de Carone ir para a priso. Segundo a juza, est evidenciado que Carone utiliza seu jornal para ameaar qualquer cidado que esteja cumprindo os seus deveres. Maria Isabel Fleck determinou a priso do empresrio por entender que, em liberdade, ele representa uma ameaa  sociedade e intimida as testemunhas. Entre as vtimas dos ataques feitos pelo Novo Jornal esto, segundo a juza, o desembargador Jos do Carmo Veiga, o ex-procurador geral de Justia Jarbas Soares Jnior, o juiz de direito atualmente em Nova Serrana, Christiano de Oliveira Cesarino, e o delegado chefe do Departamento de Investigaes, Mrcio Nabak. Todos eles com alguma participao nas investigaes de crimes atribudos  quadrilha liderada por Nilton Monteiro.

A priso de Carone no encerra as investigaes promovidas pelo Ministrio Pblico, mas os documentos apreendidos com o empresrio e pseudo-jornalista na segunda-feira 20 podero ajudar a responder a duas perguntas que vm h algum tempo desafiando os promotores especializados em combater o crime organizado em Minas Gerais. A primeira  saber qual  a origem dos recursos usados por Carone para manter o Novo Jornal no ar. O Ministrio Pblico j descobriu que o site no tem receita publicitria e que umas poucas propagandas que chegou a veicular eram frias. Agora, em posse de parte da papelada apreendida na segunda-feira, inclusive extratos de contabilidade, os promotores esperam encontrar alguma pista que leve ao financiador do grupo. Esse grupo evidentemente recebe algum financiamento clandestino e isso ns vamos descobrir, diz um dos delegados que participaram da apreenso dos documentos. Quem financia atividade criminosa tambm comete crime.

A segunda pergunta feita pelo Ministrio Pblico diz respeito a um atentado sofrido pelo promotor Andr Garcia de Pinho no fim do ano passado. Pinho  um dos responsveis pelas investigaes contra Nilton Monteiro e tambm contra o Novo Jornal. No meio do ano passado, o promotor recebeu alguns recados ameaadores. E, por fim, em dezembro de 2013, um dos carros de Pinho foi incendiado. Na ocasio, o promotor afirmou que tanto as ameaas quanto o atentado poderiam ter relao com as investigaes que conduzia contra um lder de uma quadrilha que est preso na Penitenciria Nelson Hungria. O promotor,  claro, se referia ao grupo de Monteiro. Com os documentos apreendidos com Carone, essas suspeitas se reforam. Isso porque na agenda do empresrio foram encontrados manuscritos contendo o endereo do promotor e as placas dos carros usados por ele. Segundo o delegado Guilherme da Costa, da 4 Delegacia de Investigao de Falsificao, Sonegao Fiscal e Crimes Contra o Patrimnio Pblico, o Ministrio Pblico apontou que as anotaes na agenda pessoal de Carone so indcios de que o atentado contra o promotor teria a autoria da quadrilha de Nilton Monteiro. O que nos foi passado pelo Ministrio Pblico  que nos manuscritos da agenda estavam as placas dos carros e o endereo do
 promotor atacado no ano passado, disse o delegado.

"O site Novo Jornal nada mais  seno um balco de negcios para o bando" Andr Garcia Pinho, promotor

Em sua defesa, Carone alega que exerce o papel de jornalista e que, portanto, tem direito  liberdade de expresso. Em maro do ano passado, porm, a Associao Brasileira de Imprensa (ABI) emitiu uma nota oficial na qual manifesta repdio em preocupao com o material divulgado pelo site Novo Jornal. O site, de acordo com a nota, produz reportagens com falso contedo que se prestam a finalidades criminosas. Na avaliao do promotor Pinho, a tese da liberdade de expresso usada por Carone  to absurda quanto um traficante preso transportando drogas alegar que est sendo ofendido no direito constitucional de ir e vir.


4#5 ELE NUNCA ESTEVE TO ISOLADO
O governador de So Paulo, Geraldo Alckmin, continua favorito, mas chega s vsperas da eleio com a menor base de apoio de sua histria
Alan Rodrigues

Na poltica, convencionou-se dizer que disputas eleitorais nas quais h pouco ou quase nenhum risco de derrota so as que encontram  usando um termo geralmente associado  aviao  um cu de brigadeiro em seu horizonte. Foi o que ocorreu nos ltimos cinco pleitos disputados pelo PSDB ao governo do Estado de So Paulo. H 20 anos, os tucanos encontram cu aberto pelo caminho: conseguem atrair  sua rbita o maior nmero de partidos, celebram alianas eleitorais com mais facilidade, conseguem montar os mais robustos palanques e, nas urnas, justificam o favoritismo. Desde 1994, ganharam todas. Muitas sem necessidade de segundo turno, como em 2006 e 2010. Agora, no entanto, pela primeira vez em mais de duas dcadas, nuvens pesadas surgem no caminho e ameaam deixar a disputa mais turbulenta para os tucanos.

TURBULNCIAS - Debandada de aliados faz com que Geraldo Alckmin perca o apoio de mais de 150 prefeitos em So Paulo

A nove meses da disputa, o candidato  reeleio do PSDB, Geraldo Alckmin, nunca esteve to isolado. Rompido com os principais partidos e lideranas que lhe deram sustentao nas ltimas campanhas, como PMDB e PSD (ento DEM), e mal resolvido com o indeciso PPS, fiel parceiro de outrora, Alckmin agora v um importante aliado, o PSB, deixar seu arco de alianas. Essas baixas representam a perda de apoio de 30% dos prefeitos paulistas, alm de metade do tempo no horrio eleitoral gratuito em relao s eleies passadas. Os tucanos enfrentaro as maiores turbulncias dessas eleies, avalia o cientista poltico Gaudncio Torquato, professor da Universidade de So Paulo (USP). Atualmente, Alckmin s pode contar mesmo com o desestruturado DEM, o sempre questionado PSC de Marco Feliciano e, se tudo correr como o esperado, o PTB.

FATOR CAMPOS - Parceria com Marina Silva levou PSB a sair da aliana com Alckmin

O desembarque dos socialistas da canoa do PSDB ao lado de outras importantes legendas comeou com a sada do PMDB da coligao. Os peemedebistas lanaram o nome do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, que j aparece nas pesquisas em segundo lugar, com cerca de 20% das intenes de voto. Na ltima semana, ganhou fora a possvel aliana entre o PMDB, de Skaf, e o PSD, de Gilberto Kassab. No caso, o ex-prefeito de So Paulo desistiria da candidatura ao governo do Estado e disputaria a vaga como senador na chapa de Skaf. Estrategistas eleitorais acreditam que essa seria uma grande tacada do ex-prefeito, j que ele manteria o apoio j declarado  presidenta Dilma Rousseff e no teria de enfrentar eventuais contratempos de estar numa chapa coligada com o PT.

O grande problema do desembarque das grandes legendas da coligao tucana  o enfraquecimento regional do partido, ponto forte do PSDB em So Paulo.  a fora do interior que determinar o resultado dessas eleies, explica o socilogo Fbio Gomes, presidente do Instituto Informa. Em nmeros, as baixas tucanas no interior do Estado podem chegar a mais de 150 das 645 cidades paulistas. Ao que parece, ao contrrio do que ocorreu em eleies anteriores, tucanos podem esperar chuvas e trovoadas no horizonte.


4#6 QUEM EST ASSANDO ESSA PIZZA?
Lentido da Justia j permitiu que o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia fique impune no mensalo tucano e outros acusados podem ter o mesmo destino 
Josie Jeronimo

Se depender da celeridade do Poder Judicirio, o desfecho do chamado mensalo tucano ser muito diferente daquele apresentado pela Ao Penal 470, mais conhecida como mensalo do PT, no qual o Supremo Tribunal Federal agiu como determina a legislao, e ex-ministro, ex-deputados, empresrios e banqueiros j pagam na priso as penas que lhes foram impostas. No primeiro, o nico resultado at agora apresentado pelo Judicirio foi a prescrio da pena que poderia ser imposta a um dos rus, o ex-ministro Walfrido dos Mares Guia. Na semana passada, a Justia de Minas decretou que para ele o caso est encerrado. Sem punio. O mesmo poder ocorrer em abril, favorecendo o empresrio Cludio Mouro e posteriormente outros acusados. Isso porque a Justia de Minas Gerais ainda se atrapalha para ouvir testemunhas e nos processos criminais o tempo costuma ser aliado dos rus.

O ARTICULADOR E O CANDIDATO - No mensalo tucano, Mares Guia ( esq.) foi o coordenador do esquema para tentar eleger Eduardo Azeredo governador de Minas

Mares Guia, o primeiro favorecido pela lentido da Justia, teve no mensalo tucano um papel semelhante ao do ex-ministro Jos Dirceu no mensalo do PT, condenado como chefe de quadrilha a dez anos e dez meses de priso, com direito a um embargo infringente para um dos crimes.  Cludio Mouro, que, ao que tudo indica, sair livre de qualquer punio, era o tesoureiro, como Delbio Soares, que foi condenado a oito anos e 11 meses. A proximidade original dos mensales  tamanha que o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza, quando fez a denncia, chamou o mensalo tucano de origem e laboratrio do mensalo petista.

Embora o procurador geral Cludio Fonteles tenha denunciado o ex-governador mineiro Eduardo Azeredo (PSDB) em 2003, no STF, o caso s comeou a andar depois das denncias contra o partido rival, trs anos mais tarde.  Os caminhos escolhidos pela Justia tambm foram muito diferentes. Os rus petistas foram reunidos num julgamento s, por um nico relator, num nico tribunal. Isso permitiu a aplicao da teoria do domnio do fato, que definia hierarquia e responsabilidades entre todos. Os rus do mensalo tucano foram separados por uma deciso conhecida como desmembramento. Em 2014, o Supremo ir julgar apenas dois rus  o atual deputado Eduardo Azeredo e o senador Clsio Andrade , enquanto os outros 13 esto sendo julgados numa Vara de primeira instncia em Belo Horizonte. Quem for condenado em primeira instncia, em Belo Horizonte, ter direito, automaticamente, a pelo menos um segundo julgamento, por outros juzes, em outro tribunal.

O TESOUREIRO - Cludio Monteiro foi o responsvel pelas finanas no mensalo tucano. Em abril poder ser favorecido pela precrio 

A fase final do julgamento de Azeredo e Clsio ainda no tem data definida. Se o STF quiser, pode julgar cada um separadamente, sendo que Azeredo ser o primeiro porque seu caso est h mais tempo na casa. Mas se o ministro-relator Luiz Roberto Barroso preferir reunir os dois rus num julgamento s, a deciso ir demorar alguns meses a mais. O julgamento de Belo Horizonte s deve comear em 2015. Se no houver um empenho do Judicirio, o desfecho do Mensalo Tucano poder representar um passo atrs para a Justia.


4#7 EMPRSTIMOS SUSPEITOS
Secretrio da Casa Civil do Cear, Arialdo Pinho,  acusado de envolvimento no escndalo dos consignados. Justia determinou a quebra de seus sigilos bancrio e fiscal

Como todos no Cear sabem, o governador Cid Gomes (PROS) sofre de enxaqueca. Ela  to terrvel que, nos momentos de crise,  recorrente o recolhimento dele no Palcio da Abolio, sede do poder cearense. Nos ltimos dias, as dores lancinantes voltaram a lhe incomodar. Porm, a causa  poltica. Cid est sendo cobrado por representantes de seu prprio governo e da oposio para demitir o secretrio da Casa Civil, Arialdo de Mello Pinho. O secretrio da Casa Civil de Cid  acusado pelo Ministrio Pblico do Cear por supostas irregularidades que envolvem ele prprio e sua famlia na concesso de emprstimos consignados a servidores estaduais.

NA MIRA - Segundo MP, h indcios de que Arialdo Pinho tenha praticado trfico de influncia

Na segunda-feira 14, a juza Ndia Pereira, da 13 Vara da Fazenda Pblica de Fortaleza, determinou a quebra dos sigilos bancrios e fiscal de Arialdo Pinho, do genro dele, Lus Antnio Valadares, dono da Promus Promotora de Crdito e Cobrana Extrajudicial, e do scio deste, Bruno Barbosa Borges, proprietrio da ABC Administradora de Cartes de Crdito, alm de mais quatro pessoas. No Cear, o esquema  conhecido como escndalo dos consignados.

ENXAQUECA - Governador do Cear, Cid Gomes, vem sendo pressionado a demitir o secretrio da Casa Civil

De acordo com os promotores Ricardo Rocha e Luiz Alcntara, h fortes indcios de favorecimento ilcito e possivelmente trfico de influncia. As irregularidades nos consignados foram denunciadas pelo deputado estadual Heitor Frrer (PDT), que apontou que a Promus operava com exclusividade com emprstimos para servidores estaduais. Alm disso, a empresa  acusada de oferecer taxas de juros cerca de 70% acima do valor praticado no mercado. Heitor classificou o esquema como engenharia para enriquecer aliados, j que a empresa gerencia os emprstimos consignados e recebe 19% dos valores dos emprstimos, em torno de R$ 10 milhes mensais. Homem de extrema confiana do governador, Pinho coordenou as duas campanhas eleitorais de Cid Gomes e chegou a ser cotado para disputar a sucesso.


4#8 ESQUEMA PARANAENSE
Empresria Ana Cristina Aquino diz que negociatas para abrir filial de sua empresa no Paran incluam pagamento de propina para Pepe Richa, irmo do governador do Estado
Izabelle Torres

Em depoimento registrado em cartrio sobre os esquemas dos quais participou, a empresria Ana Cristina Aquino envolve a cpula do governo do Paran. Em pelo menos quatro pginas desse registro, Ana descreve um emaranhado de ligaes de polticos com empresrios em torno do interesse em negcios milionrios e suspeitos e diz temer pela prpria vida desde que decidiu contar o que sabe. Segundo ela, Pepe Richa, hoje secretrio de Logstica e irmo do governador do Paran, o tucano Beto Richa, e Amaury Escudero, atual representante do escritrio do governo em Braslia, se tornaram seus parceiros no ambicioso plano: o de abrir uma filial da sua empresa no Estado com a finalidade de fechar um contrato com a montadora Renault do Brasil. Um negcio que poderia render milhes por ms.

MILHES EM JOGO - Segundo a empresria, Pepe Richa (abaixo), secretrio de Logstica e irmo do governador do Paran, Beto Richa (acima), queria lucrar com o contrato entre a AGX Log e a montadora Renault. Acima, cpia da agenda entregue ao MP listando as propinas

De acordo com o depoimento da empresria, a negociao era intermediada pelo advogado Joo Graa, que  do PDT e chegou a ser cotado para a vaga de suplente da senadora e ex-ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, em 2010. Segundo Ana Aquino, Joo Graa se aproximou do poder no Paran depois de comandar a Superintendncia Regional do Trabalho, entre 2007 e 2009. No segundo semestre de 2012, disse a empresria, o advogado marcou uma reunio entre ela e Amaury Escudero. O objetivo era arquitetar como agiriam em grupo para viabilizar o negcio com a Renault. No encontro, segundo a empresria, ficou decidido que o secretrio Pepe Richa e Escudero pressionariam a montadora para contratar a transportadora de Ana, usando como instrumento de barganha uma srie de isenes ficais concedidas pelo governo a montadoras nos ltimos anos. O apoio, entretanto, custaria alto. Eu perguntei ao Amaury (Escudero): O que o senhor ganha com isso? O senhor vai me botar na Renault de graa, do nada? Ele ento falou que eles ficariam com 20% da empresa. Mas que colocaria em nome do advogado Joo Graa. Seriam 10% de um e 10% do outro, afirmou em entrevista  ISTO.

Documento da Junta Comercial referente  empresa AGX Log  criada tambm por ela  mostra que Joo Graa se tornou dono de 20% das cotas em julho de 2012. O advogado apresentou duas verses para o fato. Na primeira, disse que nunca foi scio da Ana Aquino e nem sequer conhecia a empresria. Confrontado com os registros oficiais, admitiu a sociedade. Graa oficializou sua sada em agosto do ano passado, depois de um desentendimento com Ana Cristina. Procurado novamente na quinta-feira 23, disse que no se manifestaria sobre as denncias at conhecer o teor das escutas. Na sexta-feira 24, Escudero disse  ISTO que as acusaes so falsas e que jamais houve as reunies citadas pela empresria. Ele afirma que os acessos a seu gabinete so todos registrados e que pode comprovar que a empresria est mentindo. No posso aceitar ser objeto de um jogo poltico que nem sei qual . Essa pessoa no tem credibilidade para me acusar, afirma Escudero.

O depoimento da empresria revela outra faceta do negcio. Em troca do apoio para que o grupo AG Log entrasse no Paran e conseguisse o contrato da Renault, o irmo do governador tambm teria recebido propina. O Pepe Richa recebeu R$ 500 mil. No foi da minha mo, foi da mo da Suzana Leite, uma lobista. O Gabardo (Sergio) me entregou o dinheiro para eu levar ao Paran. Dei o dinheiro para ela e fiquei dentro do carro esperando, diz ela. A entrega teria ocorrido na semana anterior  inaugurao da sede da AGX Log no Estado, em 11 de abril de 2013. Segundo Ana, Pepe estaria to envolvido com os negcios da transportadora que emprestou o seu nome para figurar no convite da festa de inaugurao, a pretexto de fazer uma palestra, e ainda se encarregou de distribu-lo aos polticos.  Como ele estava ganhando, deu essa ajuda porque eu no era conhecida. No levaria os polticos para o evento, disse. Suzana Leite afirmou que as acusaes no tm fundamento. J Pepe Richa classificou as declaraes de Ana Cristina de infundadas, caluniosas e irresponsveis. Disse ainda que a AG Log no  prestadora de servios da Renault no Paran.

Em encontro no segundo semestre de 2012, ficou decidido que Pepe Richa pressionaria  a montadora para contratar a transportadora de Ana CRISTINA

No documento que registrou em cartrio, a empresria confirma que a negociata no deu certo. O contrato no saiu, mas as dvidas da empresa se multiplicaram. Incentivada pelo grupo a buscar dinheiro no mercado para montar a frota exigida pela montadora, Ana Aquino recorreu a agiotas. Para validar os emprstimos, ela diz que apresentava um contrato assinado pelos integrantes do governo e pelo funcionrio da Renault Julio Barrinuevo, que tambm teria recebido propina para facilitar o negcio com a montadora. O contrato no tinha validade jurdica nem veracidade. S quem se deu mal fui eu, disparou.  

O Pepe Richa recebeu R$ 500 mil. Eu saquei esse dinheiro

As dvidas acumuladas por Ana Cristina Aquino so, em boa parte, originadas no Paran. Nas conversas com ISTO, ela contou que montou uma frota de caminhes para ganhar um contrato com a Renault e que pagou R$ 500 mil para o irmo do governador. A seguir, trechos da entrevista:

ISTO  A senhora manteve negcios com integrantes da cpula do governo do Paran?
 Ana Cristina Aquino  O Joo Graa me chamou e disse que tinha um negcio para mim. Viajei at Londrina e, chegando l, ouvi que havia um projeto grandioso com a empresa Renault. A proposta era que eu levasse a AG Log para o Paran. Joo Graa disse que no tinha problema porque havia muitos polticos envolvidos nesse negcio.

Para tratar sobre dinheiro, ela (Suzana Leite) falava: o boss  (Pepe Richa) pediu para voc conseguir um agrado  de tantos mil

ISTO  Mas quem eram esses polticos?
 Ana  Uma semana depois, foi marcado meu encontro em Curitiba com o Joo Graa e com o Amaury Escudero. Tivemos uma reunio fechada para discutir esse contrato. Amaury se props a pressionar a Renault para colocar a AG Log no negcio. Ele disse que cobraria a conta de uma srie de benefcios fiscais que o Estado teria dado  empresa, e que, se a montadora se negasse, ele teria como pression-los. Eu disse: e o que o senhor ganha comisso? Ele ento explicou que teria 20% da empresa, mas que colocaria em nome do Joo Graa. Mas seriam 10% de um e 10% do outro. Depois dessa conversa houve mais uns trs encontros e a fui entendendo o negcio. Tinha muita gente do governo do Paran envolvida. Posso dizer que o Pepe Richa (irmo do governador do Paran) recebeu R$ 500 mil. Eu saquei esse dinheiro.

ISTO  Recebeu da sua mo?
 Ana  No foi da minha mo, foi da mo da Suzana Leite. Ela  uma lobista, uma espcie de Marcos Valrio.

ISTO  A senhora tratou sobre esse assunto com o governador Beto Richa?
 Ana  Cheguei a encontrar com o governador, mas no tratei nada com ele. Era s com o Pepe mesmo. A Suzana Leite chama o Pepe de boss. Para tratar sobre dinheiro, ela falava: O boss pediu para voc conseguir um agrado de tantos mil.

